Quando compra um bilhete de avião, está impresso nele um código de três letras – LHR, CDG, JFK. Quando o mesmo avião aterra, no ecrã de navegação da cabine de pilotagem aparece um código de quatro letras – EGLL, LFPG, KJFK. Não são sistemas diferentes para aeroportos diferentes. São dois códigos paralelos para o mesmo lugar.

Um é para passageiros e sistemas de reserva (IATA). O outro é para pilotos, controladores de tráfego aéreo e boletins meteorológicos (ICAO).

Vejamos em que diferem estes códigos e por que razão existem dois.

Dois códigos para um aeroporto – não é erro nenhum

O aeroporto de Istambul tem o código IATA IST e o código ICAO LTFM. Ambos se referem ao mesmo edifício, mas são usados em contextos diferentes. O IST é o que vê no bilhete e nos painéis de partidas. O LTFM é conhecido apenas por pilotos, controladores e meteorologistas.

A confusão surge quando um passageiro comum se depara com um código de quatro letras num boletim meteorológico ou num serviço de rastreamento de voos e não percebe de que aeroporto se trata. É o mesmo IST, escrito segundo outra norma.

O que é a IATA

IATA (International Air Transport Association) – Associação Internacional de Transporte Aéreo. Uma organização das próprias companhias aéreas, fundada em 1945. A IATA trata da vertente comercial da aviação – tarifas, horários, sistemas de reserva e venda de bilhetes. Os códigos de três letras que aparecem nos seus bilhetes são obra dela.

O que é a ICAO

ICAO (International Civil Aviation Organization) – Organização da Aviação Civil Internacional, agência especializada da ONU. Fundada em 1944 em Chicago. Responsável pela vertente técnica e regulatória da aviação – segurança de voo, normas de tráfego aéreo e regras do espaço aéreo. É o que pilotos e controladores utilizam no dia-a-dia.

IATA – as três letras que o passageiro vê

Os códigos surgiram de uma necessidade prática. Antes da uniformização, cada companhia aérea usava as suas próprias abreviaturas – umas com duas letras, outras com três, outras ainda com o nome completo da cidade. Comprar um bilhete com duas escalas em três companhias diferentes era complicado até para os agentes de viagens.

Na década de 1930, as estações meteorológicas dos EUA trabalhavam com códigos de dois caracteres – a transmissão de dados por telégrafo era cara e cada símbolo poupava dinheiro. Com o crescimento da aviação comercial, passou a haver mais aeroportos do que combinações possíveis com duas letras. Com duas letras existiam 676 combinações; com três, chegava-se às 17 576. A transição foi inevitável.

A maior parte dos códigos IATA lêem-se de forma intuitiva – HAV é Havana, BKK é Banguecoque, MAD é Madrid. Alguns aeroportos receberam códigos com base nas primeiras letras do nome. Outros herdaram os antigos códigos das estações meteorológicas, com uma terceira letra acrescentada para garantir unicidade. Foi assim que Los Angeles ficou LAX (LA mais uma terceira letra qualquer), Portland ficou PDX e Phoenix ficou PHX. O X nestes códigos não significa nada – é apenas um carácter de preenchimento.

ICAO – quatro letras para quem opera os voos

A ICAO construiu o seu sistema segundo um princípio diferente. Quatro letras em vez de três e uma lógica estritamente geográfica – a primeira letra indica a região do mundo, a segunda o país, as duas restantes o aeroporto específico.

No caso da Turquia vê-se de imediato. O prefixo é LT, e todos os aeroportos turcos o partilham – LTFM (novo Istambul), LTBA (Atatürk, encerrado), LTAI (Antália), LTAC (Ancara). O Reino Unido tem o prefixo EG – daí EGLL (Heathrow), EGKK (Gatwick), EGCC (Manchester). França é LF, e percebe-se logo – LFPG é Charles de Gaulle, LFPO é Orly.

Os EUA funcionam segundo um esquema simplificado. Ao código é adicionado o prefixo K, seguido do mesmo código IATA de três letras (por exemplo – KJFK, KLAX, KORD, KSFO). Foi uma escolha deliberada, para que os pilotos nos EUA não tivessem de memorizar dois conjuntos de letras completamente diferentes para o mesmo aeroporto.

Na Europa a abordagem é geográfica. A primeira letra indica a zona regional, a segunda o país dentro dessa zona, as duas restantes o aeroporto concreto. A Europa continental divide-se principalmente entre duas zonas – E (Reino Unido, Norte da Europa, Alemanha, Polónia) e L (França, Itália, Espanha, República Checa, Áustria, Balcãs, Turquia). Por isso, na Europa, o código ICAO raramente coincide com o IATA. A República Checa é LK, Praga é LKPR. A Áustria é LO, Viena é LOWW. A Polónia é EP, Varsóvia é EPWA. As duas primeiras letras identificam logo o país, o que é prático para pilotos em rotas internacionais – estes códigos aparecem todos os dias.

Niko

Na cabine trabalho exclusivamente com ICAO. Planos de voo, boletins meteorológicos, NOTAM – tudo em códigos de quatro letras. O IATA serve apenas para perceber para onde vão os passageiros. Quando digo ao controlador “a caminho de LTFM” – toda a gente percebe. Se dissesse IST poderia haver uma pausa, porque há três anos esse código correspondia a outro aeroporto.
Niko
· Piloto de Boeing 777, explora cidades durante os stopovers

Onde se usa cada código

IATA (3 letras)
  • Bilhetes de avião e cartões de embarque
  • Sites de reserva
  • Painéis de partidas e chegadas
  • Etiquetas de bagagem
  • Sistemas de check-in
  • Aplicações móveis das companhias aéreas
ICAO (4 letras)
  • Planos de voo
  • Comunicação entre tripulação e controladores
  • Boletins meteorológicos METAR e TAF
  • NOTAM (avisos aos pilotos)
  • Cartas e bases de dados aeronáuticas
  • Software de aviação (ForeFlight, Jeppesen)

Resumindo – como passageiro só precisa do código IATA.

O código ICAO aparece em dois cenários. O primeiro – é piloto. O segundo – consulta detalhes de voos específicos em serviços técnicos ou procura informação técnica sobre um voo ou companhia aérea.

Quando os códigos coincidem e quando divergem

Os EUA são praticamente o único lugar onde o sistema é transparente. JFK em IATA, KJFK em ICAO. Basta acrescentar o K à frente. Funciona assim na quase totalidade dos aeroportos americanos com códigos estabelecidos.

O Reino Unido segue outra lógica. Heathrow – código IATA LHR, código ICAO EGLL. EG é o Reino Unido, LL identifica especificamente o Heathrow. Nenhuma ligação às letras LHR. O mesmo acontece com o Gatwick (LGW torna-se EGKK) e com qualquer outro aeroporto do país.

Frankfurt é ainda mais ilustrativo. Código IATA FRA, código ICAO EDDF. EDDF lê-se como Alemanha (ED) mais Frankfurt am Main (DF). Há lógica, mas não é óbvia à primeira vista.

Bases militares e pequenos aeródromos privados têm frequentemente apenas código ICAO, sem IATA. A IATA só atribui códigos onde existem voos comerciais de passageiros. A base RAF Lakenheath em Inglaterra é EGUL, sem IATA. O aeródromo de Biggin Hill, perto de Londres, é EGKB – o código IATA BQH existe tecnicamente, mas não aparece na maioria dos sistemas de reserva.

Mudanças de nome e reatribuição de códigos

Em abril de 2019, Istambul inaugurou um novo aeroporto. O código IATA IST passou do antigo Atatürk para o novo Istanbul Airport; o Atatürk recebeu temporariamente o código ISL e foi encerrado para voos de passageiros. É um caso raro de reatribuição de um código IATA consolidado. Se procura dados históricos sobre voos via “IST antigo”, lembre-se de que antes de abril de 2019 era um aeroporto completamente diferente. Na ICAO não existe esta confusão – o Atatürk continua a ser LTBA e o novo Istambul é LTFM.

Cidades com vários aeroportos

Londres é servida por seis aeroportos. Cada um tem o seu código IATA – LHR (Heathrow), LGW (Gatwick), STN (Stansted), LTN (Luton), LCY (City), SEN (Southend). Existe ainda o código agregador LON, usado pelos motores de pesquisa quando procura voos “para Londres” sem especificar o aeroporto.

O mesmo acontece com Paris – o código global PAR agrega CDG (Charles de Gaulle), ORY (Orly) e BVA (Beauvais-Tillé). Nova Iorque tem NYC para JFK, LGA e EWR. Istambul tem IST (novo aeroporto) e SAW (Sabiha Gökçen, no lado asiático); não existe código de cidade agregador, o que por vezes cria confusão ao reservar.

Os códigos agregadores de cidade são uma criação da IATA. Na ICAO não existem de todo. A ICAO trabalha com aeródromos concretos, não com cidades. Faz sentido – um piloto não pode aterrar “em Londres em geral”; precisa de uma pista específica.

Casos práticos

Está a reservar um bilhete e vê “IST – LHR”

São códigos IATA. IST é o novo Istanbul Airport, aberto em 2018, a 35 km a noroeste do centro de Istambul. LHR é o Heathrow. Não é preciso mais nenhuma interpretação – para um passageiro, esta informação chega.

Está a consultar um boletim METAR para um aeroporto

O METAR começa sempre com o código ICAO. “METAR LTFM 121150Z…” – é a meteorologia do Istanbul Airport. Muitos sites que apresentam meteorologia aeroportuária só aceitam códigos ICAO; tentar introduzir IST devolve erro.

Está a acompanhar um voo em tempo real

Quando segue um voo em curso, na ficha do voo aparecem os dois códigos – o código IATA para a companhia aérea e o número de voo (por exemplo, TK1980), e o código ICAO para os aeroportos de partida e chegada. Os aeroportos surgem duplicados nos dois formatos.

Procura o aeroporto de uma cidade pequena

Se um aeroporto não tem voos comerciais, também não tem código IATA. A base militar RAF Lakenheath em Suffolk tem o código ICAO EGUL, mas não tem IATA. Se a pesquisa de voos por uma cidade não devolver resultados, é provável que o aeroporto simplesmente não tenha código IATA – ou que esteja a pesquisar no sítio errado.

Quando o ICAO não serve de nada ao viajante

Com toda a honestidade – 99% das pessoas nunca vai precisar de saber ICAO. Se apenas viaja como passageiro, não se interessa por aviação para além do bilhete e não rastreia voos, não faz sentido memorizar códigos de quatro letras. Todas as aplicações, painéis e sistemas de reserva funcionam com IATA, e isso chega para toda a vida. Os códigos IATA dos aeroportos estão sempre impressos no seu bilhete ou voucher de voo.

O ICAO torna-se útil em três situações:

  • A primeira – gosta de ver onde estão os aviões em tempo real através de um rastreador de voos (na ficha do voo aparece o código ICAO).
  • A segunda – está a planear um voo em aviação ligeira na Europa (aí o código de quatro letras é usado em qualquer registo).
  • A terceira – quer simplesmente perceber a estrutura da aviação um pouco melhor do que o passageiro comum.

Se nada disto se aplica ao seu caso – pode perfeitamente esquecer o ICAO depois de ler este artigo.

O código IATA no bilhete chega para qualquer viagem.

Códigos de referência: aeroportos mais conhecidos

Aeroporto IATA ICAO Lógica ICAO
Istanbul Airport IST LTFM LT = Turquia, FM = aeroporto
Heathrow, Londres LHR EGLL EG = Reino Unido
JFK, Nova Iorque JFK KJFK K = EUA + código IATA
Charles de Gaulle, Paris CDG LFPG LF = França
Frankfurt FRA EDDF ED = Alemanha
José Martí, Havana HAV MUHA MU = Cuba
Dubai (principal) DXB OMDB OM = Emirados Árabes Unidos
Changi, Singapura SIN WSSS WS = Singapura
Schiphol, Amesterdão AMS EHAM EH = Países Baixos
Haneda, Tóquio HND RJTT RJ = Japão

FAQ

A IATA só atribui códigos a aeroportos com voos comerciais de passageiros. Bases militares, aeródromos privados e terminais de carga sem ligações comerciais recebem apenas código ICAO. Existem cerca de 9 000 códigos IATA no mundo e mais de 40 000 códigos ICAO – é exactamente essa a diferença.

Raramente, mas sim. Istambul em 2019 é o exemplo mais claro: o código IST passou do Atatürk para o novo Istanbul Airport. Acontece quando o aeroporto principal de uma cidade é transferido para outra localização. Em geral, a IATA evita alterar códigos já consolidados, porque isso quebra bases de dados históricas de reservas e cria confusão nos arquivos.

O código de cidade (metropolitan area code) é um código IATA agregador que engloba todos os aeroportos de uma mesma cidade. LON inclui LHR, LGW, STN, LTN, LCY e SEN. PAR inclui CDG, ORY e BVA. NYC agrega JFK, LGA e EWR. Ao pesquisar voos com o código de cidade, o sistema mostra resultados para todos os aeroportos em simultâneo.

A primeira letra indica a região. E é o Norte da Europa, L é o Sul da Europa e o Mediterrâneo, K são os EUA, Z é a China, Y é a Austrália, F é a África subsariana. A segunda letra especifica o país. A lista completa de prefixos está no documento ICAO Doc 7910 e no site icao.int. A forma mais rápida é introduzir o código na pesquisa do ourairports.com.

A IATA cresceu a partir dos sistemas comerciais de reserva, onde três letras chegavam para cobrir os milhares de aeroportos com voos de passageiros em todo o mundo. A ICAO abrange toda a aviação civil, incluindo mais de 30 000 pequenos aeródromos e bases militares. Para este volume, três letras dão combinações a menos – o máximo são 17 576. Com quatro letras chegam-se a 456 976 combinações.