Nadia
Chamo-me Nádia, e já passei mais tempo no ar do que a maioria das pessoas passa no trânsito em toda a vida. Oito anos a usar o uniforme de assistente de bordo, milhares de horas a dez mil metros de altitude, centenas de cidades vistas pela janela do avião. Vi amanheceres sobre Tóquio enquanto os passageiros dormiam, e corri pelo aeroporto de trânsito de Dubai às quatro da manhã à procura de um café decente. É uma vida que prende.
O blogue surgiu por acaso. Em 2021, comecei a escrever notas no telemóvel mesmo a bordo - entre os anúncios e o serviço de refeições. Era só para não me esquecer dos detalhes. O cheiro do mercado em Banguecoque. A cor do céu sobre o Atlântico em fevereiro. Um pequeno café em Viena onde entrei a correr quarenta minutos antes do embarque. Depois percebi que havia pessoas a ler essas notas. E decidi escrever a sério.
Não abandonei o trabalho para viajar - uso o trabalho como bilhete. O meu horário dá-me aquilo que os outros poupam durante anos: escalas em Seul, noites em Lisboa, manhãs em Montreal. Por vezes tenho dezoito horas numa cidade desconhecida, e sei exatamente como vivê-las bem. Sem pressa. Sem armadilhas para turistas. Só a cidade e eu.
Aqui escrevo com honestidade. Sobre o que é Paris quando lá estás pela terceira vez e já não corres para a Torre Eiffel. Sobre como encontrar alojamento perto do aeroporto sem perder a sanidade. Sobre os truques que fui recolhendo ao longo de anos de voos - na bagagem, na alimentação, nos percursos. Já me cansei, perdi coisas, cheguei atrasada a ligações e certa vez passei uma noite no aeroporto de Helsínquia numa cadeira de descanso. Comigo, ficas preparada para tudo.
Se também olhas para os horários dos voos como uma lista de desejos - bem-vinda. Vamo-nos entender.